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Patrícia Lobo

O pássaro voou

15.06.19 | Patrícia Lobo

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Fonte

 

Tenho medo que seja o último dia, sempre. O dia em que ele me atirará com toda a força contra a parede. O dia em que ele me apertará o pescoço tão brutalmente que se esquecerá de largá-lo.

 

Tenho medo, sempre. Já não me recordo dos dias em que ele me trazia um ramo de flores, em vez de um par de socos. Perderam-se, na minha memória, os dias em que usava maquilhagem para me pôr bonita para ele. A verdade é que continuo a usar maquilhagem, mas para esconder a raiva que ele me deixa no corpo. Não sei de onde ela vem, porque a única coisa que tenho feito, desde o primeiro dia, é amá-lo. E eu sei que ele também já me amou. Agora, não mais. Foi o emprego? Foi a bebida? Não. A resposta é sempre não, porque aquilo que ele me faz não tem qualquer desculpa. No entanto, concedo-lhe o perdão, todos os dias.

 

Mas hoje, não tive medo. Quando ele entrou em casa, ouvi-o tropeçar no tapete da entrada. Sabia que ele vinha desequilibrado, bêbado. Não demorou muito até me agarrar e tentar despir-me. Estava na cozinha a preparar o jantar.

— Não! - gritei.

 

O silêncio abateu-se sobre nós e eu nunca tinha visto tanta fúria nos seus olhos. Eu sabia que era o fim, mas não tive medo. A mão dele encontrou, com toda a força, a minha cara. Caí. Confusa, olhei pela janela em busca de alguma luz que me guiasse. No parapeito, para lá do vidro, estava um pássaro. Achei que era um melro, mas não tive a certeza. Não tive tempo. Lembro-me de pensar, uma última vez, como seria a minha vida se fosse livre como ele. E, de repente, tudo ficou escuro e o pássaro voou.

 

Este texto faz parte do projecto Storyteller Dice, do blog As Gavetas Da Minha Casa Encantada.

The Bibliophile Club | Se Esta Rua Falasse

12.06.19 | Patrícia Lobo

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Há muito tempo que queria ler Se Esta Rua Falasse, de James Baldwin, e há medida que o tempo foi passando, a curiosidade aumentou cada vez mais, por ler tantas críticas positivas ao livro. Fui adiando a leitura até ser desvendada a categoria de Junho para o The Bibliphile Club. Não pensei duas vezes antes de escolher Se Esta Rua Falasse para o mês dos Autores Negros.

 

É Tish quem narra a história que se desenrola nas páginas deste livro. Com 19 anos, apaixona-se pelo amigo de infância, Fonny. Juntos, estão decididos a enfrentar o futuro a dois, mas Fonny é acusado de um crime que não cometeu. Já na prisão, Tish conta-lhe que está grávida e é nesse momento que as famílias de ambos se unem na luta para tirar Fonny da prisão.

 

Foi o primeiro romance de James Baldwin que li e fiquei encantada com a escrita do autor. Se Esta Rua Falasse é um livro pequeno e de leitura fluída, mas não fácil. Ao longo da história, vamos sentindo com pesar as injustiças que se impuseram na vida deste casal negro, retratando assim a cruel América dos anos 70. Mas se este livro nos traz ódio e racismo, também é nestas páginas que encontramos um amor incondicional e intemporal de dois jovens que queriam apenas estar juntos, em vez de se verem através de um vidro. James Baldwin trouxe-nos a força do amor e da família. Contra tudo e contra todos.

 

Deixo-vos as minhas citação favoritas:

 

«Gostava que ninguém tivesse de olhar através de um vidro para alguém que ama.» [p. 14]

 

«Ele não era o preto de ninguém. E isso é crime nesta porcaria de país livre. Devemos ser o preto de alguém.» [p. 46]

 

«Um dos aspectos mais terríveis e misteriosos da vida é este: só prestamos atenção a um aviso em retrospectiva. Ou seja: demasiado tarde.» [p. 140]

 

Este blog é agora afiliado da Wook e Bertrand:

Wook | Se Esta Rua Falasse

Bertrand | Se Esta Rua Falasse

Livros | Demência

10.06.19 | Patrícia Lobo

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Quando Olímpia começa a acusar os primeiros sinais de demência, Letícia regressa à pequena aldeia beirã para assistir a sogra, acompanhada pelas suas filhas, Luz e Maria. Porém, nenhuma delas é recebida calorosamente pela comunidade, pois Letícia traz consigo o peso de um crime que cometeu. Apesar disso, esforça-se para manter afastados os fantasmas do passado, enquanto Olímpia, desconfiada e muitas vezes sem certezas do que se passou com Fernando, o seu único filho e marido de Letícia, pede ajuda ao amigo de infância, Sebastião, para descobrir o que realmente aconteceu. Na mesma altura, Gabriel, melhor amigo de Letícia e Fernando, quer voltar a aproximar-se dela e das filhas.

 

Simpatizei, desde o início de Demência*, com as personagens Letícia e Olímpia, pois sentia que as duas tinham uma história muito forte, mesmo sem ainda a conhecer na íntegra. Ao longo do livro vamos visitando o passado de ambas, para melhor percebermos o porquê do rumo que as suas vidas tomaram. Evidenciam-se então duas mulheres sofridas, mas de uma força avassaladora. A autora também nos revela um Portugal pouco desenvolvido e bastante conservador, num passado demasiado semelhante ao presente, o que muitas vezes me deixou revoltada.

 

Acho que este livro poderia ser resumido numa frase, retirada das suas próprias páginas, que nos diz que «as pessoas preferem os factos aos motivos». Foram 460 páginas que vivi com emoção as histórias de Letícia e Olímpia. Duas gerações distintas, duas mulheres que sofreram nas mãos de um homem e de uma comunidade que comentava aquilo que não sabia e se remetia ao silêncio quando não devia. Um livro que nos faz pensar e refletir sobre temas diversos, como violência doméstica, sobrevivência, amor e família.

 

Demência* está, sem dúvida, na lista dos livros favoritos do ano e foi um prazer enorme conhecer, pela primeira vez, a escrita da Célia Correia Loureiro, autora portuguesa de quem fiquei fã.

 

* Este blog é agora afiliado da Wook.

Leituras de Junho

02.06.19 | Patrícia Lobo

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Confesso que este calor me tem dado cabo do juízo. Sou, sem dúvida, uma pessoa do frio e é disso que eu estou a precisar agora. Disso e de tão boas leituras para Junho, como aconteceu em Maio.

Como já vem a ser hábito e este mês não será diferente, as participações mantêm-se nos clubes literários The Bibliophile Club e Net Book Club. Serão as próximas leituras quando terminar Demência, da Célia Correia Loureiro. Estou a adorar o livro e toda a história que a Célia criou, mas isso é tema para outro post que espero escrever em breve. Por outro lado, tenho andado a descurar o Projecto Accio e pretendo voltar a tocar nesse tema, com o quinto e maior livro da saga Harry Potter, ainda este mês.

Deixo-vos agora a lista de leituras para o mês em que finalmente tenho férias!

 

The Bibliophile Club

Os livros comprados no Dia Mundial do Livro ainda se arrastam na estante. Se Esta Rua Falasse*, de James Baldwin é um deles. Já teria pegado nele há mais tempo, mas estive indecisa entre ele e o Demência e este segundo ganhou numa votação que fiz no Instagram. Decidi então esperar pelo mês de Junho para perceber se se encaixaria na nova categoria do clube. Fiz tão bem esperar! Autores Negros foi a categoria escolhida pelas fundadoras do clube.

 

Se esta rua falasse, esta seria a história que contaria: Tish, 19 anos, apaixona-se por Fonny, que conhece desde criança. Fazem juras de amor e conjuram sonhos para a vida a dois. Sensual, violento e profundamente comovente, este romance é uma bela canção de blues, de toada doce-amarga, com notas de raiva e ainda assim cheia de esperança. Publicado pela primeira vez em 1974, Se esta rua falasse é o quinto romance de James Baldwin, um dos nomes maiores da literatura americana do século XX e uma das vozes mais influentes do activismo pelos direitos civis. Um romance manifesto contra a injustiça da justiça e uma história de amor intemporal, é hoje tão pertinente e tão comovente quanto no dia da sua publicação. - Wook

 

Net Book Club

O livro de Maio foi maravilhoso, e podem ver a minha opinião aqui. Para Junho, a escolha também promete. O país escolhido na votação nos instastories do @_netboobclub_ foi a Polónia e o livro lido será Viagens*, de Olga Tokarczuk.

 

O coração de Chopin é secretamente levado de volta para Varsóvia pela sua irmã; uma mulher vê-se obrigada a regressar à Polónia para envenenar o seu primeiro amor, moribundo numa cama; um homem começa a enlouquecer quando a mulher e o filho desaparecem misteriosamente, apenas para, do mesmo modo, reaparecerem subitamente — através destas e outras histórias e personagens, brilhantemente relatadas ou simplesmente imaginadas, Viagens explora, ao longo dos séculos, o significado de se ser um viajante, um corpo em movimento, não apenas através do espaço, mas também do tempo. De onde provimos? Para onde vamos ou regressamos? - Wook

 

Projecto Accio

A colecção ficou completa em Maio, depois de algumas atribulações com o último livro da saga. Porém, ainda só li quatro dos livros, pelo que planeio retomar a leitura da saga com o quinto, Harry Potter e a Ordem da Fénix*.

 

Harry Potter está prestes a começar o seu quinto ano na Escola de Magia e Feitiçaria de Hogwarts. É, aliás, com ansiedade que aguarda o regresso às aulas para rever os seus amigos Ron e Hermione que, estranhamente, deram muito poucas notícias durante o Verão. Contudo, o que Harry vai descobrir neste novo ano em Hogwarts vai transformar radicalmente todo o seu mundo e a sua vida... - Wook

 

Quais são os vossos planos para Junho? Contem-me tudo nos comentários.

 

* Este blog é agora afiliado da Wook.