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Patrícia Lobo

Sab | 15.06.19

O pássaro voou

Por Patrícia Lobo

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Tenho medo que seja o último dia, sempre. O dia em que ele me atirará com toda a força contra a parede. O dia em que ele me apertará o pescoço tão brutalmente que se esquecerá de largá-lo.

 

Tenho medo, sempre. Já não me recordo dos dias em que ele me trazia um ramo de flores, em vez de um par de socos. Perderam-se, na minha memória, os dias em que usava maquilhagem para me pôr bonita para ele. A verdade é que continuo a usar maquilhagem, mas para esconder a raiva que ele me deixa no corpo. Não sei de onde ela vem, porque a única coisa que tenho feito, desde o primeiro dia, é amá-lo. E eu sei que ele também já me amou. Agora, não mais. Foi o emprego? Foi a bebida? Não. A resposta é sempre não, porque aquilo que ele me faz não tem qualquer desculpa. No entanto, concedo-lhe o perdão, todos os dias.

 

Mas hoje, não tive medo. Quando ele entrou em casa, ouvi-o tropeçar no tapete da entrada. Sabia que ele vinha desequilibrado, bêbado. Não demorou muito até me agarrar e tentar despir-me. Estava na cozinha a preparar o jantar.

— Não! - gritei.

 

O silêncio abateu-se sobre nós e eu nunca tinha visto tanta fúria nos seus olhos. Eu sabia que era o fim, mas não tive medo. A mão dele encontrou, com toda a força, a minha cara. Caí. Confusa, olhei pela janela em busca de alguma luz que me guiasse. No parapeito, para lá do vidro, estava um pássaro. Achei que era um melro, mas não tive a certeza. Não tive tempo. Lembro-me de pensar, uma última vez, como seria a minha vida se fosse livre como ele. E, de repente, tudo ficou escuro e o pássaro voou.

 

Este texto faz parte do projecto Storyteller Dice, do blog As Gavetas Da Minha Casa Encantada.

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